domingo, 17 de agosto de 2014

SOMOS TODOS TRAIDORES


A dor chega de repente, ela invade, arromba, amedronta, tira o ar, o fôlego, o chão.
Ela dói, mói, remói e destrói... é uma dor incompatível com a paz.
Traições surgem sem precedentes, sem pestanejar. Sua forma e intensidade dependem de quem, com quem e o que se traiu.
Traição não vem somente das relações amorosas. Ela pode nascer no ambiente de trabalho, criar espaço na amizade, no meio familiar. Não importa aonde, quando chega, ela reina!
A traição é inconfundível.
Sua dor é destrutiva e as reações são surpreendentes: ira, choro, vingança, mágoa, descrença...
Passado o tempo, algo pode mudar, alguns buscam perdoar, outros remoem uma dor que faz a imaginação aflorar, o estômago virar do avesso, o sono ir embora.
Mas nada se compara à clássica traição do amor. Saber que aquela boca, pele e corpo que você ama e cuida, aquela intimidade que era só tua, já não é mais, agora grita exposta a outra boca, pele, a outro corpo.
Que sentimento é esse que nos faz tão donos exatamente daquilo que jamais foi ou poderia ser nosso?
A outra pessoa NUNCA é nossa. Podemos chamar de meu marido, minha namorada, meu/minha amante... Somente o pronome é MEU, a pessoa não.
Somos do outro e o outro é nosso até o limite de cada vontade. E ainda que muitos resistam ao chamado ato de trair, é fato que as mentes não têm fronteiras, os pensamentos vagam e dispersam-se no despudor de desejos que urgem.
Se traímos nosso parceiro, somos censurados. Se a traição for feita pela mulher, imediatamente é condenada, nem precisa de julgamentos. A mulher que trai tem sua sentença pronta. O homem que trai, via de regra, tem sua desculpa pronta.
Mas se resistimos ao ato, acabamos por trair nossos pensamentos, traímos os nossos desejos e por consequência traímos a nos mesmos.
Do próximo ou de si próprios, em algum momento, somos todos traidores.
A ótica dos julgamentos é bem distinta. Quem trai o próximo recebe intolerância. Quem trai a si mesmo é quase canonizado por resistir duramente aos prazeres do mundo.
Nada de apologias aqui.
Não é bom trair.
E seria impossível narrar todas as razões pelas quais os amantes se prostram.
Trair dói, machuca, maltrata quem é traído, entristece e marca quem trai.
Traidores às vezes se arrependem, às vezes viciam.
Traídos às vezes perdoam, às vezes se vingam.
Quem nunca traiu o outro, certamente tem grande chance de ter traído a si mesmo.
Em maiores ou menores proporções, culpados ou quase inocentes, certos ou ligeiramente errados, somos todos traidores.


AdrIAnA rIbEIrO

terça-feira, 27 de novembro de 2012

ÚLTIMAS PALAVRAS


Encerrando um ciclo importante e necessário da minha vida, decidi escrever não mais sobre sentimentalidades, mas sim sobre o que efetivamente toca meu coração agora.
Minha mente andou confusa. Há tempos alterno sentimentos contraditórios. Mas nos últimos dois meses, estou surpresa comigo.
Há uma paz não sentida antes. Há uma solidão planejada, desejada.
Ando me perguntando onde está todo aquele amor?
Um amor que me sufocava, me consumia, um amor-agonia...
Dois meses após o final dramático de um romance que entre idas, vindas e muitos quilômetros durou um ano e meio... estou querendo saber onde coloquei todo aquele amor, toda ausência, saudade, toda dor.
Já o senti algumas vezes muito próximo. É como se os seus pensamentos magnetizassem os meus.
Perco-me em pensamentos turvos. A rua das brisas vai acontecer sem ele!
Raiva daquele dia, daquela fraqueza e do seu próprio preconceito.
Senti raiva por ter-me deixado partir com tanto amor.
Ele cumpriu seu papel, deixou-me cair e não olhou para trás, seguiu em frente.
Eu, alternei meus pensamentos entre a crença e o desejo que ele voltasse, olhasse para trás, quisesse recuperar o que deixou partir.
Vi insegurança nos seus gestos, me decepcionei com seu silêncio.
Tudo terminou da mesma maneira que começou. Puto e pudico duelando. O puto venceu, estendeu sua mão e recebeu seu pagamento como na primeira vez.
Sei que nada acontece por acaso, por isso minha passividade.
Queria lhe dizer:
“Seguir em frente sem olhar para trás não é sinal de força. Tropeçar, cair, levantar, olhar ao redor, recolher o que é importante e somente então seguir. Os fortes não caminham sozinhos. São generosos. Dividem sua essência, partilham seus conhecimentos, seguem seu destino sem relutância, crentes num amor maior que desenha seus próprios passos. Os fortes amam e se permitem serem amados. Desistir do amor é desistir de si próprio...”
Desejo-lhe hoje o que tantas vezes já lhe desejei... luz para os seus olhos, discernimento aos seus ouvidos, sabedoria para seus lábios, paz em seu coração. Que tudo isso junto lhe traga felicidade!
Ciclo fechado. Vida nova gritando. E a certeza de que nada foi em vão porque mais insano seria não amar...

AdrIAnA rIbEIrO

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

SAUDADES DO MEU FUTURO...

Sinto saudades de ti, de tudo o que vivemos, mas inexplicavelmente sinto muito mais pelo que ainda iríamos viver.
Saudade daquele começo de semana, onde os quilômetros diminuíam à medida que minha ansiedade aumentava.
Saudade do trabalho corrido pra logo mais eu me preparar inteira pra você.
Saudade de toda expectativa criada a cada novo encontro. Do caminho que eu já havia aprendido. Do toque no celular e do coração disparado em frente ao teu portão.
Saudade daquele latido e da fiel companhia do cão mais lindo que eu já conheci.
Sinto saudade do primeiro abraço depois de 15 dias sem se ver.
Saudade da nossa companhia, do cotidiano doméstico, do passeio de carro, de escolher frutas no mercado, do teu sorriso.
Saudade das horas na mesa, das histórias do sul e da tua família que mesmo sem conhecer eu quis fazer parte.
Saudade de ter notícias do seu pai, sobre a saúde do seu sobrinho, o novo bebê que está a caminho, da mudança de sua irmã...
Saudade do pote de mel que você encomendou pra mim.
Saudade das tuas perguntas sobre nós e das tuas dúvidas sobre o meu amor.
Saudade de ir pra cama, só pra continuar a nossa conversa, só pra me deitar nos teus braços, só pra olhar pra tua cor contrastando com a minha.
Saudade do tesão intenso que eu tinha por ti e da certeza que era só no teu corpo que o meu se aquietava.
Saudade de dormir de conchinha e daquele galo dizendo que já era hora de acordar.
Saudade do café da manhã que você fazia pra nós e do principal ingrediente que o deixava ainda mais saboroso: o amor.
Ah! Saudade do amor que eu alimentei por você. Saudade do amor que desejei que você tivesse por mim.
Saudade da alegria de saber que ainda tínhamos mais um dia.
A despedida também me traz saudades, porque ela sempre teve o tom da volta, a esperança do reencontro.
Saudade de todas as músicas que me levaram de volta pra casa pensando em você. De todos os sorrisos que espontaneamente esbocei quando me lembrei de nós.
Saudade de esperar tua mensagem sabendo que ela viria, mesmo que demorasse.
Saudade dos planos que eu fazia toda semana esperando que você aceitasse.
Saudade de te encontrar aqui e te mostrar que no meu mundo cabia você.
Saudade do treino, do clube, da piscina, da água gelada e do sol aquecendo nossos corpos.
Saudade do açaí antes de pegar estrada de novo.
Saudade de todos os meus argumentos pra te convencer que ser amado é delicioso.
Saudade das madrugadas de sexta-feira em que, enquanto você trabalhava, eu te pedia em casamento. Saudade dos teus “sins” e dos “lógicos”.
Saudade da rua das brisas e de todas as alterações que ainda faríamos no projeto da nossa casa.
Saudade da área, da cadeira e do chimarrão. Saudade da nova família.
Saudade da casa que ainda não existe, lar de um amor que não sobreviveu.
Saudade de soltar pipa e de admitir pra minha filha que eu realmente gostava de você.
Saudade da água de Ibirá e do churrasco gaúcho naquela tarde em que viveríamos 100% qualidade de vida.
Saudade de todas as viagens que não fizemos, mas que planejei uma a uma.
Saudade de Valença, de Bagé, de Porto Alegre, do Guarujá e de Paris.
Saudade de visitar o Museu da Aviação, te filmar no long e do passeio de moto que você me prometeu.
Saudade de te deixar ir trabalhar e continuar dormindo.
Saudade da comida japonesa, do frango, da batata doce e até da esquecida tequila.
Saudade daquela dança que você nunca fez pra mim. E da mídia que transformou meu corpo com teu incentivo.
Saudade da mulher apaixonada que fui, do amor que desejei, do homem que implorei que você fosse pra mim.
Saudade de me esquivar de uma cantada, de recusar qualquer convite porque eu tinha você.
Saudade da lealdade que tive com a nossa história e de me surpreender com as suas mudanças.
Saudade dos últimos 600 dias.
Hoje, tentando entender como seria possível sentir saudade de tantas coisas que não vivi, chego à conclusão que tudo foi vivido em plenitude dentro de mim.
No auge da minha loucura, vivi a história que somente eu alimentei. Acreditei num amor que só vivia em mim, acreditei em você que não existia, salvo nos meus sonhos, salvo nos meus desejos, exceto no meu futuro incerto.
Sinto saudade do espaço que você ocupava, do amor que eu lhe dediquei e do homem que você poderia ter sido.
Saudade de um amor plantado e nutrido somente no meu presente.
Saudade sim, de um amor sem futuro.

AdrIAnA rIbEIrO

quarta-feira, 25 de julho de 2012

NOCHE CALIENTE

Uma nova cor estava surgindo naquela noite. A vida antes acinzentada, agora se alternava com um brilho fluorescente, uma tonalidade alegre, cercada de pigmentos de paz.
O ritmo latino tomou conta da noite, primeiramente na voz que entoou canções inesquecíveis, depois, nos imprevistos e na nostalgia que tomou conta da multidão.
Embalada pela profundidade da canção, ela pensou nas infinitas possibilidades daquela noite.
A tendência “caliente” continuou e o destino era conhecido. Naquele lugar já havia ocorrido cenas de um amor insano.
A noite, a princípio, já parecia completa. Ela estava extasiada com tudo de melhor que presenciou até então.
Mas a sensação de procurar alguém que certamente não estaria ali a coibiu de abrir seus olhos por algum tempo.
Quando tomou consciência de que a única coisa que poderia viver era o que já estava vivendo, quis partir.
Uma última volta pra se despedir do ambiente e de repente seus olhos se abriram para um sorriso verdadeiramente belo.
O ritmo era quente, embalado por salsa e merengue.
O doutor da noite estendeu-lhe a mão e puxou-a para dançar.
Alguns passos e a música os unia ainda mais. O envolvimento era contagiante e o toque deliciosamente doce.
Apresentados, entrelaçados... Brindaram,dançaram, sorriram tanto e beijaram mais.
A sensibilidade estava à flor da pele e o entrosamento era perfeito.
Beijos, carinhos, afagos, dança, abraços e uma despedida que não aconteceu.
Ele fez escolta, ganhou a confiança dela e juntos viram o dia nascer.
Ela entendeu... quando tudo parecia sem sentido, entendeu que as pessoas vão chegando em nossas vidas na medida em que abrimos nossos olhos, nossas portas, nosso coração.
Esta pode ser apenas mais uma página no livro de sua vida, uma página que inevitavelmente lhe causa sorrisos, mas também pode ser um novo capítulo.
Tudo depende do aprendizado que provoca e do desejo de cada um em ensinar e aprender.
Se ela aprendeu algo? Lógico que sim, especialmente que há homens diferenciados e por seus gestos merecem o que de melhor uma mulher pode oferecer.
Ela também aprendeu a não gastar energia à toa, a focar, a dar o melhor de si tão somente a quem faz por merecer.
Se esta história continua?
A versão romântica ainda veremos, mas a versão aprendizado, esta sim, não pára nunca.
"A ella le gusta la idea de encontrar un nuevo amor y ama aún más a pensar que cualquiera puede hacerlo, su gran amor".

AdrIAnA rIbEIrO

quinta-feira, 14 de junho de 2012

ERA PRA SER ASSIM...

Ando pensando em como a vida muda de rumo sem muitas vezes nos darmos conta.
Situações simples, acasos, coincidências, desencontros... A qualquer momento o caminho pode mudar e todo resto da sua vida será uma nova vida.
Conheço histórias sensacionais em que foi necessário muito pouco para que daí em diante tudo fosse diferente:

Uma frase;Um susto; Um início; Um esforço; Uma propaganda; Um vestibular; Uma praça; Uma demissão; Uma entrevista de emprego; Um olhar; Um término; Um recomeço; Uma certeza; Uma emoção; Uma dor; Um orgulho; Uma crença; Uma luta; Uma desistência; Um arrependimento; Um adeus; Uma esperança; Uma coragem; Um sim; Um não; Uma decepção; Uma omissão; Um tratamento; Uma tentativa; Um novo lugar; Uma carona; Um anúncio; Um show; Uma paixão; Um desejo; Uma busca; Uma música; Uma migalha; Uma constatação; Uma verdade; Um aprendizado; Uma leveza; Uma surpresa; Um “eu te amo’; Um banquete; Uma viagem; Um avião; Um ônibus; Uma mudança; Um bilhete; Uma mensagem; Um encontro; Uma loucura; Um hotel; Um motel; Um medo; Um querer; Um quarto; Uma cama; Uma mesa; Um café da manhã; Um shopping; Um clube; Uma comida (japonesa); Uma madrugada; Uma história; Um ombro; Uma risada; Um sonho; Uma meta; Uma dúvida; Uma perda; Uma volta; Uma metade; Um inteiro; Um ciúme; Um esclarecimento; Uma mudança; Um carinho; Uma receita; Um chamego; Um beijo; Uma ausência; Um despudor; Um passeio; Um espetáculo; Um jantar; Uma aliança; Uma promessa; Uma afinidade; Uma felicidade; Um voto de confiança; Um amor insano.
Você pode ter vivido uma, várias, todas ou tantas outras situações e cada uma delas definiu uma nova direção e cada uma delas te levou para a próxima e sem querer a história foi sendo contada.
Assim é a vida, sutil e ao mesmo tempo intensa. Assim são as infinitas possibilidades.
Todos os dias fazemos uma infinidade de escolhas conscientes ou não, e estas escolhas são capazes de nos surpreender.

Predomina um toque divino naquelas situações em que tudo era controverso, mas no final, o resultado é muito melhor do que se imagina.
Sim, eu tenho certeza da providência “lá de cima” que nos coloca justamente onde deveríamos estar, que traz e leva pessoas de nossa vida, que todos os dias opera pequenos milagres em nossa rotina, tudo nos chega como presentes.
Muitas vezes não os reconhecemos, mas são presentes que devemos aceitar porque cada um deles forma um pedacinho da nossa história e um, leva ao outro e de presente em presente o futuro vai sendo desenhado do jeito que é pra ser.

AdrIAnA rIbEIrO